Nosso início foi em 81/82. Eu havia sido demitido da multinacional Nestlé por haver me insubordinado com meu chefe, que era do Rio de Janeiro e não aceitava que o gerente da filial de Salvador tivesse me admitido sem o conhecimento prévio dele. Vinha aqui uma vez por mês e era um o tempo todo me atormentando . Eu era destaque em prospecção de novos clientes, minha divisão chamava-se GU, Grandes Utilizadores, cozinhas industriais de hospitais, hotéis, empresas do novo, naquela época, Polo Petroquímico, com suas imensas cozinhas que forneciam mais de mil refeições/dia.

Numa dessas visitas ao Polo, onde visitávamos a nutricionista chefe de uma grande empresa, ela, que a cada visita minha cobrava brindes e amostras, voltou a pedir e eu apresentei o meu chefe. Foi a gota d’água. Na volta de Camaçari para Salvador, já sem paciência de ouvi-lo reclamar e gritar, parei o carro da companhia que dirigia e o expulsei do carro.

Foi a melhor decisão da minha vida! Ao chegar no escritório da Nestlé minha demissão já estava consumada.

Com a indenização, comecei a procurar o que fazer. Já havia trabalhado antes com meu pai (que sempre trabalhou no ramo) e voltei a fazê-lo provisoriamente visitando farmácias.

Numa dessas visitas, fui à Farmácia Nossa Senhora do Socorro, na Fazenda Grande do Retiro, visitar um cliente que tinha ótimo relacionamento comigo. Ele havia falecido e a viúva, que não entendia nada de farmácia, me ofereceu uma das três que tinha.

Foi a minha primeira oportunidade para entrar no ramo.

Só havia duas farmácias no bairro. Em dois anos, abriram mais 7 farmácias, incluindo a Santana, bicho papão na época.

Meu movimento passou a minguar e foi o pior momento da minha vida. Liege com três anos, Rogerinho 1,6 meses. Cheguei um dia a pedir a um amigo dinheiro para comprar uma lata de leite. Com débitos e títulos vencendo, decidi vender a Fcia.

Paguei todos os fornecedores, vendi meu carro e passei a andar de ônibus. Numa dessas andanças de ônibus cheguei, pela primeira vez à Estação da Lapa, recém inaugurada, com um fluxo impressionante de pessoas por dia.

Decidi procurar no entorno um ponto comercial. Junto com meu saudoso pai, saímos da Piedade procurando , caminhando, um de cada lado da rua, batendo de porta em porta já que na Rua Coqueiro da Piedade só existiam residências na época da inauguração da Lapa. Depois de várias e infrutíferas visitas, batemos no número 19 e fomos atendidos por uma senhora, moradora há mais de 30 anos na rua e atormentada com aquele súbito movimento anormal de pessoas na rua com camelôs gritando na porta dela, urinando e tumultuando uma rua outrora pacata e tranquila.

Fizemos um contrato de locação e iniciamos uma pequena reforma, abrindo a Fcia em 82/83. Não tínhamos um móvel sequer. Minha mãe me deu o beliche do quarto de empregada da casa dela, onde dormiam minha sogra e meus filhos pequenos. Num outro minúsculo quarto, colocamos um colchão barato no chão e era a nossa cama. A casa não tinha nenhuma janela e a porta da frente única era a entrada da farmácia.

Minha esposa trabalhava na Telebahia, no Cabula, saia antes das 7:00 para pegar o ônibus. Eu levava os meninos andando para o Colégio NS das Mercês as 6:30 e voltava para abrir a loja às 7:00, pontualmente.

Tínhamos uma única funcionária. As 11:30 eu ia buscar os meninos na escola e almoçávamos no Pães Mendonça que havia aberto no recém inaugurado Shopping Piedade, que abriu em 84,/85. Fechávamos as 22:00. Jurinha chegava às 18:00/19:00 e ia cuidar das crianças. Não tínhamos telefone. Fazia os pedidos pelo recém-criado Sistema Certo da Drogafarma pelo orelhão (telefone público) na Lapa.

Em dada altura, tínhamos mais três novas farmácias na rua, incluindo uma Santana, ao lado da nossa. Com o atendimento diferenciado que tínhamos, eu ficava durante todo o período da loja aberta no balcão só fazendo a reposição de estoque após as 22:00, quando fechava, preenchendo manualmente o formulário da Drogafarma, pedindo 1 medicamento de cada, sem deixar faltar nada.

Começamos a crescer.

Sua mãe já havia saído da Telebahia, estávamos indo muito bem. Decidimos aumentar a loja. Sem fechar, com cimento, operários, goteiras, fizemos a reforma e fomos morar na laje. Dois quartos e uma sala lá em cima. Comprei Um Fiat 147, Verde., usado. Entrei num Consórcio Chevrolet e sorte! Ganhei meu primeiro carro zero ! Um Monza marrom metálico 4 portas. 15 dias depois, Sr Antônio, dono da concorrente Fcias São Tomás, me procurou para me oferecer a loja dele. Éramos concorrentes mais amigos. Eu já o conhecia há muito tempo, visitava ele em Camaçari quando comecei aos 17 anos trabalhando com meu pai na loja Matriz dele. Pois bem. Me ofereceu uma loja na mesma rua, mais abaixo da ladeira, do mesmo lado, e eu aceitei na hora. Disse que não tinha dinheiro mais tinha um Monza zero para entrar no negócio. Me facilitou a negociação.

Lembro que ao chegar em casa e dizer aos meninos que iríamos ficar sem o carro novo, foi um chororô só. 

Abrimos a segunda loja com um nome diferente para que o público não percebesse que era o mesmo dono. A primeira era Farmácia Lapa e a segunda, Bahia. Jurinha ficava na Bahia e eu na Lapa. Depois o proprietário de uma loja de confecções em frente à Fcia Bahia me procurou dizendo estar passando o ponto em frente. Com receio de outra Fcia vir para a nossa frente, comprei o ponto. Surgiu a Fcia Magno. Não havia desconto em produto. Quem tivesse atendimento e o produto, sortimento, vendia. A reposição era diária, pelo Sistema Certo.

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